foi no núcleo quente da Guerra Fria, muitos sabem, que foi gerada aquela que nos habituamos a “conhecer” como a rede mundial de computadores. a disputa tecnológica militarizada exigia mecanismos para a troca segura de informações e acabou provocando o surgimento de um universo de protocolos de comunicação que, ainda hoje, estão por trás de nossa vida digital.
apesar dessa origem tecno-científica militarista, a rede logo ganhou a simpatia de libertários ao redor do mundo, que viram na possibilidade de produção e de distribuição não hierarquizada e descentralizada de conteúdos, como apresentada pela internet, uma possibilidade importante para liberação da humanidade. uma oportunidade para expressão talvez nunca antes imaginada. enfim, um novo paradigma para a comunicação entre os indivíduos.
surgia assim a idéia de uma aldeia global: aldeia, palavra que agrega àquela expressão uma referência óbvia a uma certa ingenuidade rousseaniana, indicando a possibilidade de uma sociabilidade original, mais direta e inocente, ou menos mediada, agora em escala planetária.
diante dessa mitologia de origem da internet é que me surpreendo cada vez mais com as experiências na rede, atualmente. e, da última vez, essa surpresa veio com a matéria “se não for a eles, eles virão a você”, publicada no Link, no Estado de São Paulo, em 14 de junho.
o próprio título da matéria, de pronto, me lembrou a imagem do dedo apontado do Tio Sam, restringindo possibilidades de escolhas: vá ou eles virão! você não tem opção! imediatamente, não pude deixar de pensar que, apesar de tratar de fenômenos recentes na internet, a matéria poderia ser aplicada integralmente ao tão criticado domínio das mega coorporações televisivas – e de seus super vilões – sobre a formação da opinião nacional.
o problema é que, com a internet, o padrão de emissão/recepção de MUITOS para muitos, contrário à emissão televisiva de UM para muitos, era visto até pouco tempo justamente como uma possibilidade de libertação, de opção, de escolha, ao contrário do discurso único e impositivo da TV.
fiquei curioso com essa mudança: afinal, o que estamos perdendo no caminho?
para finalizar, mais um susto: frases como “para espalhar, é preciso ser bom”, “sem eu ter que correr atrás desse conteúdo, ele vem até mim”, “o mais importante é quem passa a informação” – entre outras pérolas apresentadas como as maravilhas da vida moderna com a internet – operavam a apologia de conteúdos chamados de “virais”, que por sua lógica quase patológica de expansão agem realmente como viroses e invadem rapidamente o cotidiano.
além de nos privar do poder de escolha, afinal, eles virão até nos, queiramos ou não, esses virais ainda têm uma particularidade importante: primam pelo besteirol absoluto. de Vanusa destroçando o hino nacional (sem patriotismos aqui, ok?) a inúmeras performances da dança do quadrado, todos os exemplos de conteúdos que irão chegar a todos nós, sem opção, são literalmente peças inigualáveis da idiotice humana.
talvez ao publicar este post minha experiência seja a de ter que me defender de várias repreensões: reacionário, chato, enxaqueca, etc. tudo bem, mas ainda acho que podemos começar a pensar em trocar o utópico WWW:// por algo mais prosaico, mais global, mais parecido com as emissoras do besteirol televisivo global.
sugiro o KKK:// ou, melhor, o KKK:)).
me parece mais coerente.




